Fruto do Mato

Extensão da minha largueza!

Talhar

Palavras me servem como me serve o ar
elas são uma sala, um divã e alguém que escuta meus gemidos
a palavra jogada no papel
[de]forma
Ora!
talhar a obra é como talhar a vida
que é pedra dura
e se a água agora talha
é porque verbos
[di]versos já talharam
pedra talhada por água
sugere pedra de sorte
água parece não machucar
como a ação do verbo
mas há outros verbos
que talham sem ferir
sem pesar
e esses são recompensa
do tempo

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o fato e a pedra

tão pesado quanto o fato é a pedra que hei de colocar por cima
e precisa ser pedra pesada
e pedra pesada pressupõe pedra grande
e ouçam: pedra grande é obra do tempo
não pensem que é tempo de conversa boa com amigo
é na verdade o tempo que a água do café leva pra ferver
quando os olhos e a barriga rodeiam o fogão
e rodeiam várias águas não só aquela
mas não falei do fato
o fato é por excelência o fato
e o fato aguarda a pedra
a pedra que vai enfim soterrá-lo.

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Verdade

Verdade, fala-me desta miséria que assola a vida
Fala-me desta fome de ver e ser visto
Fala-me desta pequenez humana
E cala minha boca de revolta viva

Mostra-me, oh grande verdade:

A que vim?

Tira-me deste meio cruel, desse desconhecido coletivo
Onde todos correm desesperados
Certos de que a maquiagem é eterna
Oh grande verdade, quem és?
A que veio?

Diga-me antes que seja tarde
Esta luz me ofusca o nervos dos olhos
Na verdade, verdade, criou-se em volta dos olhos
Um pequena luz cega

Uma cama pronta
Uma cama pronta para um corpo que se debate por dentro
Um apelo dolorido
Um apelo dolorido.

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saudosa barriga

 

A imagem acima é  fragmento de um ensaio que fiz com minha querida amiga e fotógrafa Mona Luizon quando estava no sétimo mês de gravidez. Este rebento que faz dos meus dias os mais felizes já está com dois meses. Chama-se Maria Flor. É minha florzinha, minha razão. Uma parte de mim que eu não sabia .

Para ver o ensaio na integra e conhecer o trabalho da Mona acesse: http://monaluizon.wordpress.com

Namastê!

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SEGREDO!

Estes olhos que já fitaram o vazio
nunca puderam retribuir seus mimos
um vazio que assombra o que é constante
e bota medo no que surge tímido

este instante em que as cores florescem
teme o momento que a vida cobre seu preço
talvez uma pinta qualquer lhe mostre
o que só a dor em um dia triste lhe peça.

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Espanto!

De onde vem a poesia? Onde ela nasce? Ferreira Gullar diz que a poesia nasce do espanto. Que espanto é esse que dá vida à uma poesia? Vivo me espantando mas a poesia não nasce. Sinto que um espanto de grande proporção modificou meu jeito de olhar, mas ainda que esse espanto perdure por alguns meses a poesia parece que teima em não nascer.

Também, não ligo, deve ser graça do tempo! Imaginei que esse espanto daria vida a inumeras palavras,  mas não. Vejo a minha forma mudar, me espanto mas a poesia não nasce.

Mas essa não é uma poesia qualquer. Esse espanto é resultado de muitos espantos que lapidam dia a dia essa poesia que carece de tempo. Um tempo que não há de ser controlado, um tempo sem rima ou métrica. Um tempo livre  de futuro, um tempo de início mas com meios e fins quaisquer.

Essa poesia que ainda não tem rosto cresce e assim como seu autor se espanta e o modifica. Modifica sua forma e espanta, modifica seu jeito de andar e modifica seus sentimentos mais íntimos. Essa poesia que nasce do espanto ainda não paga preço algum, apenas conduz a vida de seu autor ao mais puro sentimento de existir: o espanto de vê-la nascer.

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DENTRO

Caminhava tropeçando nas interrogações da minha vida. Mudei algumas pedras de lugar e [re]surjo agora com formas mais largas e arredondadas. Um pouco ofegante, mas com passos rápidos à procura de uma vida que não se resume no meu sentir. Antes sou a mulher, claro, mas agora não só.

Ainda existem feridas que os dias cuidam. Por vezes as interrogações teimam em me questionar, mas não respondo. Passo sem encara-las para não me irritar, para não dizer da pena e da falta de coragem que vejo.

Então sigo sem senti-las porque por mais cheia que eu esteja ainda dói a cabeça baixa, a imposição aceita, o sim cheio de negação.

Quem sabe a vida não passe de um grito, desses de dor que não pára de ecoar. As vezes sem volume, mas em sua maioria audível a ponto de ensurdecer até o mais cegos dos olhos.

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Mudança!

Transitava na linha tênue da Libertinagem.
Intocável!
Escondida atrás de uma fina máscara translúcida que me fazia visível.
Carência!
Buscava estas noites cheias, vermelhas e cegas.
Solidão!
Queria uma distância, um canto onde pudesse me encolher sozinha!
Coragem!
Mas nesta casa cheia de minha largueza encontrei aquilo que o medo conteve por toda minha existência: meu sorriso, minha alegria, minha saúde, minha paz.
Meus gritos ecoam daqui.
Caminham aqui minha leveza impermeável, aqui mato esses tempos programados.
Vivo o presente, o Velho, o novo
Aqui sinto uma vida mais viva.

AMOR!

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Paciência!

Me dê um café preto. Deixe-me alimentar minha incompreensão. Talvez ele estanque minha raiva, minha vontade de cortar cabeças.

Sente-se ai. Vamos conversar. Me fale dos seus dias, dos seus planos. Conte-me novamente aquela história, prometo que não dormirei. Vai demorar para chegarmos e como você sabe temos um longo caminho.

Comece falando do seu primeiro suspiro. Lembro que veio em minha direção com um sorriso primeiro de quem tudo sabia. Não disse nenhuma palavra, pegou em minha mão e me pós a caminhar. Estas lembranças me ajudam a esquecer essa escuridão de portas abertas. É assim que me sinto aqui. Mas são só algumas horas.

Deixo que elas passem sem que eu as perceba. Elas estão sempre muito ocupadas com a paciência. Não tem problema, so estamos nós dois e praticamente invisíveis. Portanto me diga: porque essas horas custam tanto à passar?

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Dose!

Uma dose de compreensão apenas! Aplique bem aqui, nesta veia saltada. Mas cuidado. Aplique devagar! Senti-la muito rápido pode fazer mal!

Antes de aplicar dissolva em meia dose de amor. Você tem amor ai? Espere. Amor não. Qualquer quantidade de amor é demais ! O amor é violento. Disolva na coragem. Isso coragem!

Aplique e saia. Vou fechar os olhos e quando abri-los não quero vê-lo mais aqui! Entenda esse meu pedido. Não quero que me veja quando a compreensão tomar conta de mim. Volte depois. Volte depois e fiquei comigo. Fique por alguns dias. Fique por alguns anos. Só não coloque amor em minha comida.

Me deixe em silêncio as vezes. Não se acostume também. Eu não vou me acostumar. Os dias, ao contrario do que você pensa, não são comuns. O dia nasce e morre todo dia. Nascemos e morremos com ele. Não se iluda pensando que a cada dia é um dia a mais. É menos. Mas não se preocupe com isso. 

Aplique em você uma dose de compreensão. Mas aplique pura ! Você vai precisar. Aplique e saia para ver o dia. Esconda-se em você! E depois me conte.

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